5.6.12
dicionário irrefletido
Abacate: Com açúcar, é considerado a fruta mais doce do Brasil.
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Academia: Organização fundada, dizem, por Platão e seus amiguinhos filósofos, quando encontraram um jardim (de Academus, claro) onde podiam ensinar, sobretudo à garotada, altas ideias, e gostosas marginalidades. (Vide Sócrates. Ou não vide.)
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Ano: Trezentos e sessenta e cinco dias. E seis horas de lambuja.
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Antropometria: Se Protágoras estava certo quando dizia (num desvairado antropomorfismo) que o homem é a medida de todas as coisas, então o pênis dele era o sistema métrico.
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Crase: "A crase não foi feita pra humilhar ninguém." (Ferreira Gullar) A crase não existe no Brasil. É uma invenção de gramáticos. Nunca ouvimos ninguém falando com crase.
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Descrente: Indivíduo que crê piamente na descrença.
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Especialista: O que sabe cada vez mais sobre cada vez menos. Com a descoberta da nanociência, infinitamente menos sobre infinitamente mais.
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Fé: Está bem que você acredite em Deus. Mas vai armado.
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Grafite: "Eu odeio grafites!" (Grafite em Roma)
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História: Uma coisa que não aconteceu contada por alguém que não estava lá.
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Ideologia: Bitola estreita para orientar o pensamento. Não existe pensador católico. Não existe pensador marxista. Existe pensador. Preso a nada. Pensa, a todo risco. A ideologia leva à idolatria, à feitura e adoração de mitos. E, finalmente, ao boquete ideológico.
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Justiça: Sistema de leis legalizando a injustiça.
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Lapidar: Verbo antigamente usado para atirar pedras em mulheres adúlteras. Hoje, desmoralizado no ocidente como punição, serve como prêmio e alto elogio: "Teu artigo, escritor, é lapidar". Também usado nos cemitérios (nas lápides) para elogios fúnebres. Não há canalhas nos cemitérios.
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Medida: "Todo homem nasce duas doses abaixo do normal." (Humphrey Bogart)
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Meyer: Bairro do Rio de Janeiro. Quando nasci, o Meyer era o umbigo do mundo. Vivíamos com a consciência, inconsciente, de que nunca teríamos que abandonar o bairro e a cidade (como muito mais tarde eu iria aprender que era o normal na maior parte das cidades pobres e tristes do Brasil) para sobreviver.
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Ofensas: "O perdão às ofensas é uma grande virtude." (Moralismo tedioso de Machado de Assis. Do livro Pensamentos e reflexões de Machado de Assis)
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Pão: O pão que o diabo amassou. Expressão incompreensível pois em nenhum lugar da Bíblia ou da História se diz que o Diabo era padeiro.
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Propaganda: A madrasta da prostituição.
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Televisão: Maravilha tequinológica que levou ao extremo o barateamento da popularidade. Criando a glória prêt-à-porter.
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Variante: O gay põe sempre o carro adiante dos boys.
Millôr
13.5.12
mãe
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!
(Mario Quintana)
Mãe, que suportou a dor do meu parto para logo em seguida suportar a dor de me ver chorar. Que ao meu lado, aos 6 anos de idade, internado em uma cama de hospital, enfrentou as dores terríveis que uma meningite quase irreversível é capaz de oferecer. Que chorou comigo as tantas agulhas que me aterrorizaram.
Mãe que, em silêncio, ouviu um dia seu ingrato filho dizer que ia embora. Mãe que, além da vida, me deu um irmão de sangue maravilhoso e que, entre trancos e barrancos, aceitou caminhar ao lado do meu pai pelas aventuras que a política mais que dolorida proporciona.
Mãe, não só por isso, mas pelo todo o resto. E para todo o sempre.
24.4.12
20.4.12
o evangelho segundo Jesus Cristo
Perdoem-lhe, pois ele não sabe o que fez. É com essa frase, olhando aos homens e se referindo a Deus, que Jesus encerra sua saga terrestre no romance escrito por José Saramago. Se cuidarmos, a modificação da frase bíblica original (“Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem”) passa desapercebida. Uma tacada extremamente ousada e perigosa quando a grande maioria dos leitores que procuram o livro são cristãos, e dos mais fiéis.
Como falar de Jesus enquanto filho de Deus não é e nunca será uma tarefa fácil (mesmo porque os sacerdotes reservaram-se ao direito de não aproximá-lo de nós simples mortais), o autor propõe no livro um Jesus filho de homens, filho de gente. Primogênito, nascido cheio de sangue e viscoso de mucosidade, Jesus teve, na história, a extraordinária experiência de saber o que é ter irmãos de verdade, irmãos de sangue. Pôde sentir na pele a sensação de ter e ver seu pai morto, crucificado, aos 33 anos (mesmo que por um suposto erro de destino ou engano), pôde conhecer uma mulher, Maria, em passagem à cidade de Magdala, e com ela planejar uma família. Eu diria, em outras palavras, que Jesus tornou-se, no enredo, uma criatura deveras aceitável, ou, para os mais radicais, suportável.
Encurralado, carregando o peso quase que insustentável da revelação de seu próprio destino, Jesus representa o filho do pai lacônico, que, visando por prática seus planos divinos (ou diabólicos, não fosse a contradição contextual), não faz objeção alguma às injustas consequências de curto, médio e longo prazo que todos, sem exceção, terão que enfrentar em nome de sua única e exclusiva causa. Nos longos diálogos entre pai e filho (diga-se de passagem todos muito bem acompanhados pelo Diabo) é que Jesus demonstra sua insatisfação que irá acompanhá-lo até a morte: de receber sem pedir, de ser sem querer ser, de saber e não poder mudar. Aceitar e ser complacente ao seu destino previamente definido talvez tenha sido o maior defeito deste que, no livro, mesmo sem querer, compactuou com o bem e com o mal.
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