29.8.11

discurso de orador, formatura de psicologia

Senhoras e senhores, boa noite.

        Verbalizar os sentimentos dos poucos mas guerreiros formandos aqui presentes não me parece ser uma das tarefas mais fáceis. Mesmo tendo sido incubido desta responsabilidade há alguns dias, somente há poucas horas cheguei à conclusão sobre o que dizer neste momento.
        A inspiração veio justamente após eu lembrar de minha madrinha (também aqui presente), que em uma das tantas idas e vindas que fiz à minha cidade natal durante a faculdade, me disse na despedida: “Meu afilhado, quando não souber pra onde ir, lembre das pessoas que você gosta e que gostam de você. Elas te apontarão o caminho certo a seguir”. Talvez ela já tenha esquecido o episódio, por ter sido apenas mais um gesto de sua imensa bondade. Mas àquilo me marcou de uma maneira tão forte que desde então foi assim que passei a fazer.
        Afinal, quem nunca se sentiu “mexido” (entre aspas) por pequenos gestos assim? Eles nos transformam diariamente e até são capazes de mudar o rumo e a história da humanidade. Ora ou outra escuto por aí que brincar com metáforas é arriscado, perigoso... mas permitam-me correr esse risco: se o pequeno Édipo não tivesse sido resgatado por Pólibo, certamente Sófocles não teria escrito uma das mais belas tragédias gregas. Ouso dizer, inclusive (professor Luiz Renato e demais psicanalistas...), que, por conta disso, talvez até a psicanálise tivesse hoje outros desdobramentos. Se a cesta com o pequeno Moisés não tivesse sido resgatada pela filha do Faraó, nossa civilização e o Velho Testamento iriam por água abaixo. Se Gandhi não insistisse em sua décima quinta greve de fome, hoje talvez ainda tivéssemos uma Índia colônia da Inglaterra. Abraçado a um cavalo, Nietzsche pediu desculpa aos animais por Descartes e pela humanidade, após vê-lo apanhar de seu cocheiro; distanciou-se dos homens, rompeu com seus pares e mais tarde enlouqueceu. Pequenos e simples gestos têm tamanha relevância em nossa história que apenas um beijo foi suficiente para que Jesus Cristo fosse entregue aos judeus.
        E, para que atentemo-nos aos pequenos gestos diários, não é necessário que tenhamos formação em psicologia. Basta apenas que tenhamos um pouco de...  sensibilidade. Mas, já que por mérito estamos aqui como produtos de nossa verdadeira escolha, rogo que a partir de hoje, minhas colegas, aceitemos o fardo de sermos profissionais. E mais: profissionais que trabalham com comportamento humano, com pessoas e suas relações. Um fardo bem pesado para se carregar, é verdade, mas que quanto mais peso ganha, mais nos aproxima da terra, pressiona nossos pés para que permaneçam ao chão e, por conseqüência, nos inclina em direção a nossas únicas certezas: de sermos únicos, finitos e completamente dependentes uns dos outros. É por isso, minhas amigas, que rogo para que a leveza de nossos pensamentos não nos torne profissionais semi-deuses, irreais, afastados das condições sócio-históricas, econômicas e políticas que nos cercam. E que, sobretudo, nossos corpos tão previsíveis pela ciência não encubram nossas almas, que se manifestam incansavelmente para provar, sim, como já bem nos sugeriu Willian Shakespeare, que existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia.
        Rogo para que, quando não formos capazes de ouvir ou sermos ouvidos, tenhamos a sensibilidade de entender e nos fazer entendidos pelos nossos olhos. Um simples olhar verdadeiro e sem preconceitos pode valer mais do que mil palavras. Que sejamos prudentes, éticos e engajados. Que saibamos reconhecer em pequenos gestos a importância do outro, sem o qual não seríamos capazes de viver. E que o sentido para nossa breve passagem por este mundo seja encontrado em nossas relações mais puras, com as pessoas que nos fazem bem e que gostamos de estar perto.
        Minhas amigas, que tenhamos sucesso, seja ele entendido da maneira que nos convir. Mas que isso venha como resultado de muito trabalho (abre parênteses, trabalho verdadeiramente honesto, fecha parênteses). Que sejamos críticos e tementes à nosso próprio destino. E que se não formos capazes de reconhecer as mudanças que nossos gestos causam em nós mesmos, que tenhamos pelo menos a consciência do poder de transformação destes na história de outras pessoas.
        A vida não para, e nos colocará frente a novas encruzilhadas diariamente. E assim, daqui pra frente, quando nos sentirmos sozinhos, sem saber para onde ir, que pensemos nas pessoas que gostamos, que gostam de nós e que nos propiciaram este momento. Elas, sem sombra de dúvidas, nos mostrarão em pequenos gestos quais os caminhos devemos seguir.
       
PARABÉNS PELA FORMATURA!
PARABÉNS PELO DIA DO PSICÓLOGO!

Angelo Horst, orador da turma de Psicologia, 1º semestre de 2011 - Faculdade Dom Bosco.

0 comentários:

Postar um comentário