22.9.11

o exército de um homem só

Quem nunca se deliciou sozinho, em romances, por uma sociedade mais justa e igualitária que atire a primeira pedra. Mas não em mim.

Em suas típicas confusões, os radicais certamente dirão: um jovem que se auto-denomina revolucionário e que sonha com uma nova sociedade, mais justa e igualitária, não pode ler romances. Deve se preocupar em ler coisas mais importantes, que tragam resultados imediatos. Deve se preocupar, na verdade, em agir. Investirão pesado nesse discurso. E é por isso, talvez, que estes radicais que, na maioria das vezes também se auto-denominam revolucionários, nunca ascendem de uma posição de revolucionário auto-denominado para uma posição de revolucionário real. Afinal, para eles, um verdadeiro revolucionário gosta - apenas - de armas e pelejas.

Mas deixemos os radicais e rebeldes sem causa de lado e passemos aos revolucionários auto-denominados. Estes sonham com o Palácio da Cultura, o Tribunal do Povo e o Mausoléu dos Heróis. Sonham com o socialismo puro e as vezes - que fique claro, as vezes - se envergonham e sentem raiva de Stálim. Tratam os porcos, as galinhas, as aranhas e as cabras como compañeros, discursam para eles e são aplaudidos em pé por homenzinhos imaginários. Procuram ler Rosa de Luxemburgo e são ousados em nomear seus próprios filhos de Karl e Lênin. Reconhecem que haverá sempre alguém por quem não terão empatia, por mais que tentem evitar. Quando convém, procuram dividir tarefas, desde que as mais difíceis fiquem a cargo de outros. Erguem o mastro de uma Nova Birobidjan, leem romances, lutam muito... muito, mas sem armas. Acabam por perder as batalhas para eles mesmos. Desistem por um tempo, mas nunca deixam de sonhar.

Os verdadeiros revolucionários ou revolucionários reais, por sua vez, não fazem a mínima questão de serem conhecidos como tal, tampouco serem chamados de Capitães, Generais, Líderes, Messias. Bebem na fonte dos revolucionários auto-denominados e acham graça das queixas dos radicais (embora tenham medo de suas armas). Olham-se no espelho e, por mais que adorem se pentear, não reconhecem ou enxergam narciso. Nos domingos, trocam seus uniformes de guerrilhas por um passeio com os filhos no parque. Doem-se pelas crianças nos sinais, pelo consumo desenfreado, pelo mau-trato aos animais, pelo lixo, pelos indefesos. Gostam dos romances e esforçam-se para acompanhar os bons jornais. Têm sempre em seus bolsos um relógio e um amuleto. Por mais que não saibam, carregam consigo a rebeldia incubada dos radicais (embora continuem com medo de suas armas) e o sonho nem tão prático assim dos auto-denominados. No fundo, bem lá no fundo, sabem que uma mudança começa aqui, mas, por não saberem que o são, os verdadeiros revolucionários continuam a passar.

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